terça-feira, 5 de abril de 2011

Meio Almodovar


O que na minha vida foi meio Almodôvar, meio Fellini, só o princípio de felicidade?
Lembro de um Natal, em que eu esperava ansiosamente pelo presente. Olhava a árvore todos os dias, na esperança de descobrir em um dos pacotes um pequeno sinal de que aquele me pertencia.
Os dias iam se passando e a árvore cada dia estava mais cheia. Sabia que um ou dois eram meus, pois eramos em dez netas praticamente. A idéia do Natal gerava em mim uma felicidade incrível. O cheiro do pernil assado, do peixe, do frango (na nossa casa parecia que tinhamos que comer todos os animais viventes para realmente comemorarmos o nascimento de Jesus) e dos inúmeros doces. A alegria de brincar com as minhas primas e de dormir pouco antes da meia noite para aguardar o papai noel Tio Neco chegar. Mas, a alegria se irradiava quando pensava no meu presente.
Deu meia noite e todos os pacotes foram entregues. Nenhum era para mim.
As tias disseram que já haviam adiantado o meu presente: o abajour que havia ganhado no início de dezembro. Não me lembrava daquele bibelô.
Fiquei encolhida no Natal, com uma inveja dos demais que se deliciavam com as bugigangas encontradas embaixo da árvore.

....

Mas a música do Lenine é tão intensa que me remete a outros fatos muito tristes. À perda de entes queridos.
Eu nao conheci a minha avó paterna, somente a materna, baiana, cujo nome desse blog a ela dedico (torcidinho era um salgadinho muito trabalhoso de fazer e que era devorado em minutos por mim e pelos meus irmãos. Minha avó ralhava muito por isso. A Dona Glória ainda renderá outras postagens). Mas a Batchan me conheceu pequenina, consoante prova a foto na casa de minha mãe.
Ela morreu com 54 anos ou pouco menos. E eu sinto uma saudade doida dos bolos de fim de tarde que não provei, das músicas para dormir que não ouvi, dos apertões na bochecha que não senti... De dizer na segunda-feira que passei o domingo na Batchan, que não fala mais coisa com coisa.
O meu avô casou com a minha avó por conveniência, pois, como Jacó, amava Maria, a minha tia-avó. Quando bebia muito, ia a casa de Maria e gritava para todos e para ela que a amava. Semelhante declaração nunca ouviu a minha avó, que passou seus cinquenta e poucos anos calada, servindo a um marido amargurado e aos sete filhos. Os meus primos, com exceção de um ou de outro, nunca tiveram uma avó presente e certamente sofreram pela ausência de uma Batchan.
Talvez, se ela tivesse vivido mais um  pouquinho sentiria, enfim na vida, o amor que os netos ainda hoje sentem por ela.



2 comentários:

  1. Q musica ótima! Combinou certinho com a historia, rs.
    Também vivi esse fato, presentes que não eram meus, às vezes só recebia meias pra não deixar sem ganhar ou ainda iam ser entregues depois... é um momento magico estragado.
    Gostei do nome do blog!Uma boa homenagem a dona Gloria
    Bjus

    ResponderExcluir