Estou lendo os "Cem melhores contos brasileiros do século" e vou comentar alguns, que para mim são excelentes.
Começarei com o primeiro do livro: "Pai contra mãe" de Machado de Assis.
A história é sobre o casal Clara e Cândido Neves, que se amavam muito. Casaram-se, mas o dinheiro era pouco para a sobrevivência do casal e para ajudar a Tia Mônica (de Clara).
"A alegria era comum aos três. O casal ria a propósito de tudo. Os mesmos nomes eram objeto de trocados, Clara, Neves, Cândido; não davam que comer, mas davam a rir, e o riso digeria-se sem esforço; Ela cosia agora mais, ele saía a empreitadas de uma coisa e outra; não tinha empreo certo" (fls. 21)
Clara fazia bicos em casa como costureira para completar a renda da família. Já Cândido não se acertava em emprego algum e passou a ser caçador de escravos fujões, um ofício daquele tempo. No entanto, a concorrência se tornara grande e na maioria das vezes Candido voltava para a casa de mãos vazias.
Com a gravidez de Clara e diante da miséria que se instaurava, a Tia Mônica aconselhou o casal a entregar a criança à Roda dos Enjeitados, assim que ela nascesse. "Enjeitar quê? Enjeitar como? Candinho arregalou os olhos para a tia, e acabou dando um murro na mesa do jantar. A mesa, que era velha e desconjuntada, esteve quase a se desfazer inteiramente." (fls. 24).
Mas acabou que o casal foi despejado. A Tia Mônica conseguiu um aposento para os três em uma casa de uma senhora velha e rica. Enfim, a Tia Mônica convenceu o casal a entregar o menino à Roda dos Enjeitados, para que o mesmo não morresse de fome.
No caminho, com a criança no colo, Cândido reconheceu na rua a negra fugitiva Arminda. Bradou o nome da negra, que, inocentemente, voltou-se. Foi quando então Cândido a atou pelos pulsos. A escrava gritava e pediu que a soltasse pelo amor de Deus:
"- Estou grávida, meu senhor! exclamou. Se Vossa Senhoria tem algum filho, peço-lhe por amor dele que me solte; eu sereu sua escrava, pelo tempo que quiser. Me solte, meu senhor moço!" (fls. 26). ..."Arminda ia alegando que o senhor era muito mau, e provavelmente a castigaria com açoites, - coisa que, no estado em que ela estava, seria pior de sentir. Com certeza, ele lhe mandaria dar açoites" (fls. 27) ... "- Você é que tem culpa. Quem lhe manda fazer filhos e fugir depois? perguntou Cândido Neves" (fls. 27).
No fim, a escrava é entregue ao seu senhor. Na luta com aquele, a escrava abortou: "o fruto de algum tempo entrou sem vida neste mundo, entre os gemidos da mãe e os gestos de desespero do dono" (fls. 27).
Cândido recebeu os cem mil-réis e voltou para a casa com o filho.
"... Tia Mônica, ouvida a explicação, perdoou a volta do pequeno, uma vez que trazia os cem mil-réis. Disse, é verdade, algumas palavras duras contra a escrava, por causa do aborto, além da fuga. Cândido Neves, beijando o filho, entre lágrimas verdadeiras, abençoava a fuga e não se lhe dava do aborto. - Nem todas as crianças vingam, bateu-lhe o coração" (fls. 27).
Para mim, esse conto é uma explicação do provérbio "A barca é perdida. Salve-se quem puder". Deixe-se a consciência de lado e tente sair vivo desse louco mundo.
O que Cândido fez foi realmente horrivel e ainda justificou a sua conduta com a frase: "Nem todas as crianças vingam". Porém, isso acontece todos os dias, muitos são os momentos em que o ser humano se despe de sua humanidade e se torna um animal irracional, que mata o próximo na luta pela sobrevivência.
Nada mudou: ainda temos senhorios muito ricos que não dão à mínima para o próximo, e continuam a explorá-los; pobres que se puderem passam por cima do seu irmão; e escravos, que, sem forças para nada, continuarão a ser subjulgados por todos.
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