No dia 11 de abril fiz uma cirurgia para a retirada de um pólipo no cólo do útero. Sou alérgica a muitos medicamentos e, por esse motivo, estava com medo de morrer na maca ou de dor no pós-operatório.
A música "Meio Almodovar" busquei na internet para que fosse mostrada ao meu marido, caso eu viesse a falecer, juntamente com um e-mail que havia escrito. Nada disso aconteceu porque eu fui atendida por médicos excelentes, em um hospital de primeira linha. O e-mail de despedida foi bem deletado.
Um dia antes, em 10 de abril, uma menina de 8 anos, que vou chamar de Sofia, também fez uma cirurgia para a retirada das amigdalas em um Hospital da rede pública. Logo teve alta e foi para a casa, mesmo não totalmente recuperada, com a receita médica. Tomou o primeiro remédio no dia seguinte e a glote começou a inchar, faltando-lhe o ar.
A mãe, desesperada, voltou ao Hospital por volta das 10 horas do dia 11 de abril. A atendente disse que ela estava no setor errado, pois ali somente poderiam estar as pessoas que ainda seriam operadas. Complicações da cirurgia somente no pronto-socorro, que fica do outro lado.
No pronto-socorro, respirando com extrema dificuldade, aguardou horas para ser atendida. A mãe clamava por socorro no ponto-socorro. Por volta das 13 horas resolveram colocá-la no soro. Não é preciso ser médico para saber que sem oxigênio não se vive. Parada cardiaca logo em seguida. É entubada. Sofia falece.
Há um limite para a tristeza?
Não sei o diagnóstico de Sofia, mas há de se concordar: é cruel uma criança permanecer por horas lutando para respirar, sem o auxílio de um médico ou de uma enfermeira dentro de um hospital.
O vice-presidente José Alencar viveu por anos com um câncer. Absolutamete correto a velhice ser vivida nobremente. Mas não houve justiça para a pobre Sofia, que não pode pagar o preço para existir com dignidade.
No dia 11 de abril de 2011, a música "Meio Almodovar" tocou para a família de Sofia. Não para a minha.
Eu estou meio engasgada e com lágrimas nos olhos. Não consigo agradecer a Deus por estar viva sem me sentir uma pessoa injusta. Começo a entender o evangelho. Não quero me conformar com esse tempo. Não vou empedrecer o meu coração.
Para viver, preciso acreditar em um mundo onde a Sofia brinca com outras crianças, feliz porque não existe mais dor. Ela apenas espera a mãe voltar.
Obs.: E por conta disso, apago a postagem "Breve Desabafo" por parecer pequeno demais diante dos acontecimentos de hoje.