quarta-feira, 20 de abril de 2011

Engasgada e triste - 1

No dia 11 de abril fiz uma cirurgia para a retirada de um pólipo no cólo do útero. Sou alérgica a muitos medicamentos e, por esse motivo, estava com medo de morrer na maca ou de dor no pós-operatório.

A música "Meio Almodovar" busquei na internet para que fosse mostrada ao meu marido, caso eu viesse a falecer, juntamente com um e-mail que havia escrito. Nada disso aconteceu porque eu fui atendida por médicos excelentes, em um hospital de primeira linha. O e-mail de despedida foi bem deletado.

Um dia antes, em 10 de abril, uma menina de 8 anos, que vou chamar de Sofia, também fez uma cirurgia para a retirada das amigdalas em um Hospital da rede pública. Logo teve alta e foi para a casa, mesmo não totalmente recuperada, com a receita médica. Tomou o primeiro remédio no dia seguinte e a glote começou a inchar, faltando-lhe o ar.

A mãe, desesperada, voltou ao Hospital por volta das 10 horas do dia 11 de abril. A atendente disse que ela estava no setor errado, pois ali somente poderiam estar as pessoas que ainda seriam operadas. Complicações da cirurgia somente no pronto-socorro, que fica do outro lado.

No pronto-socorro, respirando com extrema dificuldade, aguardou horas para ser atendida. A mãe clamava por socorro no ponto-socorro. Por volta das 13 horas resolveram colocá-la no soro.  Não é preciso ser médico para saber que sem oxigênio não se vive. Parada cardiaca logo em seguida. É entubada. Sofia falece.

Há um limite para a tristeza?

Não sei o diagnóstico de Sofia,  mas há de se concordar: é cruel uma criança permanecer por horas lutando para respirar, sem o auxílio de um médico ou de uma enfermeira dentro de um hospital.

O vice-presidente José Alencar viveu por anos com um câncer. Absolutamete correto a velhice ser vivida nobremente. Mas não houve justiça para a pobre Sofia,  que não pode pagar o preço para existir com dignidade.

No dia 11 de abril de 2011, a música "Meio Almodovar" tocou para a família de Sofia. Não para a minha.

Eu estou meio engasgada e com lágrimas nos olhos. Não consigo agradecer a Deus por estar viva sem me sentir uma pessoa injusta. Começo a entender o evangelho. Não quero me conformar com esse tempo. Não vou empedrecer o meu coração.

Para viver, preciso acreditar em um mundo onde a Sofia brinca com outras crianças, feliz porque não existe mais dor. Ela apenas espera a mãe voltar.

Obs.: E por conta disso, apago a postagem "Breve Desabafo" por parecer pequeno demais diante dos acontecimentos de hoje.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Conto "Pai contra mãe" de Machado de Assis

Estou lendo os "Cem melhores contos brasileiros do século" e vou comentar alguns, que para mim são excelentes.
Começarei com o primeiro do livro: "Pai contra mãe" de Machado de Assis.

A história é sobre o casal Clara e Cândido Neves, que se amavam muito. Casaram-se, mas o dinheiro era pouco para a sobrevivência do casal e para ajudar a Tia Mônica (de Clara).
   
         "A alegria era comum aos três. O casal ria a propósito de tudo. Os mesmos nomes eram objeto de trocados, Clara, Neves, Cândido; não davam que comer, mas davam a rir, e o riso digeria-se sem esforço; Ela cosia agora mais, ele saía a empreitadas de uma coisa e outra; não tinha empreo certo" (fls. 21)
 
Clara fazia bicos em casa como costureira para completar a renda da família. Já Cândido não se acertava em emprego algum e passou a ser caçador de escravos fujões, um ofício daquele tempo. No entanto, a concorrência se tornara grande e na maioria das vezes Candido voltava para a casa de mãos vazias.

Com a gravidez de Clara e diante da miséria que se instaurava, a Tia Mônica aconselhou o casal a entregar a criança à Roda dos Enjeitados, assim que ela nascesse. "Enjeitar quê? Enjeitar como? Candinho arregalou os olhos para a tia, e acabou dando um murro na mesa do jantar. A mesa, que era velha e desconjuntada, esteve quase a se desfazer inteiramente." (fls. 24).

Mas acabou que o casal foi despejado. A Tia Mônica conseguiu um aposento para os três em uma casa de uma senhora velha e rica. Enfim, a Tia Mônica convenceu o casal a entregar o menino à Roda dos Enjeitados, para que o mesmo não morresse de fome.

No caminho, com a criança no colo, Cândido reconheceu na rua a negra fugitiva Arminda. Bradou o nome da negra, que, inocentemente, voltou-se. Foi quando então Cândido a atou pelos pulsos. A escrava gritava e pediu que a soltasse pelo amor de Deus:
       
          "- Estou grávida, meu senhor! exclamou. Se Vossa Senhoria tem algum filho, peço-lhe por amor dele que me solte; eu sereu sua escrava, pelo tempo que quiser. Me solte, meu senhor moço!" (fls. 26). ..."Arminda ia alegando que o senhor era muito mau, e provavelmente a castigaria com açoites, - coisa que, no estado em que ela estava, seria pior de sentir. Com certeza, ele lhe mandaria dar açoites" (fls. 27) ... "- Você é que tem culpa. Quem lhe manda fazer filhos e fugir depois? perguntou Cândido Neves" (fls. 27).

No fim, a escrava é entregue ao seu senhor. Na luta com aquele, a escrava abortou: "o fruto de algum tempo entrou sem vida neste mundo, entre os gemidos da mãe e os gestos de desespero do dono" (fls. 27).

Cândido recebeu os cem mil-réis e voltou para a casa com o filho.

          "... Tia Mônica, ouvida a explicação, perdoou a volta do pequeno, uma vez que trazia os cem mil-réis. Disse, é verdade, algumas palavras duras contra a escrava, por causa do aborto, além da fuga. Cândido Neves, beijando o filho, entre lágrimas verdadeiras, abençoava a fuga e não se lhe dava do aborto. - Nem todas as crianças vingam, bateu-lhe o coração" (fls. 27).

Para mim, esse conto é uma explicação do provérbio "A barca é perdida. Salve-se quem puder". Deixe-se a consciência de lado e tente sair vivo desse louco mundo. 

O que Cândido fez foi realmente horrivel e ainda justificou a sua conduta com a frase: "Nem todas as crianças vingam". Porém, isso acontece todos os dias, muitos são os momentos em que o ser humano se despe de sua humanidade e se torna um animal irracional, que mata o próximo na luta pela sobrevivência.

Nada mudou: ainda temos senhorios muito ricos que não dão à mínima para o próximo, e continuam a explorá-los; pobres que se puderem passam por cima do seu irmão; e escravos, que, sem forças para nada, continuarão a ser subjulgados por todos.
     



terça-feira, 5 de abril de 2011

Meio Almodovar


O que na minha vida foi meio Almodôvar, meio Fellini, só o princípio de felicidade?
Lembro de um Natal, em que eu esperava ansiosamente pelo presente. Olhava a árvore todos os dias, na esperança de descobrir em um dos pacotes um pequeno sinal de que aquele me pertencia.
Os dias iam se passando e a árvore cada dia estava mais cheia. Sabia que um ou dois eram meus, pois eramos em dez netas praticamente. A idéia do Natal gerava em mim uma felicidade incrível. O cheiro do pernil assado, do peixe, do frango (na nossa casa parecia que tinhamos que comer todos os animais viventes para realmente comemorarmos o nascimento de Jesus) e dos inúmeros doces. A alegria de brincar com as minhas primas e de dormir pouco antes da meia noite para aguardar o papai noel Tio Neco chegar. Mas, a alegria se irradiava quando pensava no meu presente.
Deu meia noite e todos os pacotes foram entregues. Nenhum era para mim.
As tias disseram que já haviam adiantado o meu presente: o abajour que havia ganhado no início de dezembro. Não me lembrava daquele bibelô.
Fiquei encolhida no Natal, com uma inveja dos demais que se deliciavam com as bugigangas encontradas embaixo da árvore.

....

Mas a música do Lenine é tão intensa que me remete a outros fatos muito tristes. À perda de entes queridos.
Eu nao conheci a minha avó paterna, somente a materna, baiana, cujo nome desse blog a ela dedico (torcidinho era um salgadinho muito trabalhoso de fazer e que era devorado em minutos por mim e pelos meus irmãos. Minha avó ralhava muito por isso. A Dona Glória ainda renderá outras postagens). Mas a Batchan me conheceu pequenina, consoante prova a foto na casa de minha mãe.
Ela morreu com 54 anos ou pouco menos. E eu sinto uma saudade doida dos bolos de fim de tarde que não provei, das músicas para dormir que não ouvi, dos apertões na bochecha que não senti... De dizer na segunda-feira que passei o domingo na Batchan, que não fala mais coisa com coisa.
O meu avô casou com a minha avó por conveniência, pois, como Jacó, amava Maria, a minha tia-avó. Quando bebia muito, ia a casa de Maria e gritava para todos e para ela que a amava. Semelhante declaração nunca ouviu a minha avó, que passou seus cinquenta e poucos anos calada, servindo a um marido amargurado e aos sete filhos. Os meus primos, com exceção de um ou de outro, nunca tiveram uma avó presente e certamente sofreram pela ausência de uma Batchan.
Talvez, se ela tivesse vivido mais um  pouquinho sentiria, enfim na vida, o amor que os netos ainda hoje sentem por ela.